Miranda Neto
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 Este artigo foi publicado no jornal "O Liberal" de Belém, em 18/05/99 
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 (a divulgação neste website foi autorizada pelo autor) 
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ÁGUA, RECURSO VITAL

Economista  Miranda Neto

A água como recurso indispensável à nossa sobrevivência está se tornando cada vez mais escassa. 
O pior é que a explosão demográfica e as persistentes agressões ambientais estão agravando as perspectivas. Acresce que os interesses daqueles que disputam os mesmos recursos vão se enfrentar com intensidade cada vez maior. 

Esta é a situação presente no Oriente Médio, onde os conflitos em torno do rio Jordão estão exacerbando as hostilidades nos povoados e acampamentos. O mesmo ocorre na América Latina, onde Chile e Bolívia discutem seus direitos sobre fontes e nascentes de cursos d'água. Hostilidades entre Índia e Paquistão, Bangladesh e Nepal acontecem pela mesma razão. A disputa pelo rio Eufrates confrontam a Turquia e a Síria. O Egito ameaça seus vizinhos com a guerra, caso persistam no objetivo de obstruir o curso superior do rio Nilo com represas. 

Metade da população mundial vive em países interligados por rios ou lagos comuns e, portanto, igualmente dependentes de seus recursos hídricos. A água pode facilmente tornar-se um meio de exercer-se pressão e poder quando as relações entre vizinhos deterioram-se até por outros motivos. A água constitui o pré-requisito essencial para a prosperidade e o desenvolvimento. Um país que constrói uma barragem para satisfazer sua demanda crescente por energia elétrica pode afetar o suprimento d'água do vizinho que precisa irrigar suas plantações e pastagens naturais. 

Os conflitos de interesses sobre questões envolvendo os recursos hídricos são inúmeros, e acordos, só alcançados após longas negociações, não precisam ser muito duráveis. A maneira mais segura de evitar disputas em torno da água é, a partir de agora, não desperdiçá-la a fim de garantir maior quantidade do precioso líquido para todos. 

O setor agrícola requer, para as regiões áridas, cerca de 90% dos recursos hídricos disponíveis. A maior parte das vezes, entretanto, eles não são usados com eficiência. Muito embora as bananeiras exijam grandes quantidades de água, elas são cultivadas nos desertos palestinos. Uma plantação de bananeiras cobrindo uma área de 1 hectare consome 17 metros cúbicos de água por semana. Sistemas de irrigação superdimensionados causam desperdícios maiores. 

A água doce subterrânea precisa ser melhor explorada através de poços artesianos (sic). Estimativas otimistas avaliam que se perdem de 40% a 60% de toda água tratada por mau uso, desvio e irresponsável esbanjamento. A Organização para a Agricultura e a Alimentação das Nações Unidas considera prioridade número um a modernização dos sistemas de irrigação existentes. Muitas colheitas tiveram que se adaptar à escassez de água. Técnicos agrícolas desenvolveram uma variedade de arroz que cresce e amadurece em menos de trinta dias do tempo normalmente necessário para as espécies convencionais. 

Quantidade inestimável de água é desperdiçada nas cidades devido a vazamentos em redes de abastecimento e ligações clandestinas - os chamados gatos. Acima de tudo, o consumo irresponsável do recurso valioso desfalca a oferta existente até nos países industrializados. Por exemplo, apenas cerca de 5% da água potável é realmente utilizada para beber e preparar os alimentos. Mais da metade de toda oferta é jogada fora através dos ralos de banheiras, chuveiros, vasos sanitários, calçadas e lava-jatos.

Como as próprias companhias de saneamento não confiam na potabilidade da água que fornecem, devido a evidentes sinais de contaminação das fontes, resolvem adicionar maiores quantidades de cloro, tornando-a intragável e até prejudicial à saúde. 

Apesar de toda água pura disponível estar sendo continuamente reduzida, apenas 5% são reutilizados. O Banco Mundial estima que mais de seiscentos bilhões de dólares precisarão ser investidos em todo o Planeta nos sistemas de abastecimento na próxima década para evitar perdas no consumo de água. 

O mais grave é a transformação dos rios em verdadeiros esgotos, tal a poluição causada pelos assentamentos ilegais em suas margens. Evita-se enfrentar desde o início as verdadeiras causas dos problemas, contentamo-nos em combater os efeitos com paliativos, adiando e dificultando sua resolução. Prefere-se gastar cinco vezes mais com a remediação de agressões ambientais do que investir na prevenção confiável do saneamento básico. 

Assim como já se pensa em reciclar os recursos hídricos, um projeto da Universidade Federal Fluminense (UFF) em parceria com a Universidade de Tübingen, Alemanha, desenvolve um reator em escala industrial capaz de converter matéria orgânica do esgoto em fonte de energia. Aquecidos a temperaturas superiores a 350º, os dejetos se transformam em combustível, apressando artificialmente, nas estações de tratamento, um processo natural que normalmente levaria bilhões de anos. 


Miranda Neto
Economista

(E-mail: miramazon@zipmail.com.br)

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