Álvaro Cunha
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VII Convenção Regional Rosacruz da Região PA-I

REALIZADA PELA LOJA ROSACRUZ-BELÉM EM NOVEMBRO/2005

Tema: ÁGUA, VIDA, EVOLUÇÃO

Água e etimologia

ÁLVARO CUNHA    Correio para Álvaro Cunha

 As águas simbolizam a totalidade das virtualidades, elas são as fontes e as origens, a matriz de todas as possibilidades de existência. Água, tu es a fonte de todas as coisas e de toda a existência!, diz um texto indiano, sintetizando a longa tradição védica. As águas são os fundamentos do mundo inteiro, elas são a essência da vegetação, o elixir da imortalidade; elas asseguram longa vida, força criadora e são o princípio de toda a cura. Que as águas nos tragam o bem-estar!, Suplicava o sacerdote védico. As águas, em verdade, curam, elas expulsam e curam todas as doenças!

Princípio do indiferenciado e do virtual, fundamento de toda a manifestação cósmica, receptáculo de todos os gérmenes, as águas simbolizam a substância primordial de que nascem todas as formas e para a qual voltam, por regressão ou por cataclismo. Elas foram no princípio, elas voltarão no fim de todo o ciclo histórico ou cósmico; elas existirão sempre.

Ela pode ser, também, descrita cientificamente como liquido incolor, inodoro, insípido, encontrado nos mares, rios, lagos; em estado sólido, constituindo o gelo e a neve; em estado de vapor visível formando a neblina e as nuvens; e em estado de vapor invisível no ar.

As ÁGUAS PRIMITIVAS, sinônimo da GRANDE DEUSA-MÃE, sempre despertaram o interesse daqueles que ou estudam o misticismo, ou são membros de qualquer religião monoteísta. A simbologia que a água tem é visível desde tempos remotos e fascina grandes civilizações, como por exemplo, os egípcios, os chineses, os babilônios e os hindus.

Precisamos redescobrir os tesouros simbólicos desta tão sagrada fonte de vida, energia e renascimento; para isso, mergulhemos no misticismo que as águas possuem.

No livro do Gênesis, capítulo 1, versículo II está escrito: A terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.

Enquanto para nós, hoje em dia, água é somente água; para as antigas civilizações a água, com suas ondas revoltas, foi o símbolo da forma indeterminada, que paradoxalmente podia adquirir todas as formas. Trocando em miúdos, era a desarmonia total que seria transformada em ordem, ser, beleza e harmonia.

Bom, se assim continuarmos raciocinando, veremos que os gregos chamavam ao universo criado de KOSMOS, que quer dizer beleza, ordem, enfeite. Não é preciso estudar a língua grega para saber que a palavra COSMÉTICO significa produto de higiene, elegância e beleza, que por sua vez traduz a exata idéia daquilo que os gregos queriam dizer com a palavra universo, ou seja, da DESORDEM surgiu a ORDEM, a BELEZA e a MARAVILHA que é o nosso mundo.

O vocábulo latino MUNDUS revela igual situação à palavra grega KOSMOS, assim: MUNDUS quer dizer limpo, lindo, enfeitado, harmonioso, elegante, bem tratado, equipado, mobiliado; MUNDUS ficou significando o universo depois da criação, todo adornado e belo. Sua antítese é IMUNDUS, isto é, a sujeira, a imundície, o lixo, a desordem, o caos.

A idéia de caos e desordem possuía uma imagem bem concreta, isto é, a água, o mar, os abismos do oceano.

Ao que tudo indica, Gênesis tem uma simbologia e tanto no trato com a água, mas o que de fato os antigos queriam dizer com a imagem da água?

Os dicionários de simbologia nos revelam que várias culturas e mitos interpretam essa palavra (ÁGUA) quase que da mesma maneira, a saber:

·                   No Egito antigo era simbolizada por caracteres em forma de onda, pente ou ziguezague;

·                   A água é comparada ao caos e à matéria primeira por não possuir forma;

·                   Em Thales de Mileto ela é a origem de todas as coisas;

·                   Segundo a mitologia egípcia, o monte primordial ergueu-se da água primordial (representada pelo deus Nun);

·                   Na tradição indiana, a água carrega o ovo do mundo;

·                   A água, nas culturas indígenas, é na maioria das vezes concebida como um elemento feminino;

·                   Na China associada ao Yin;

·                   Como chuva fertilizadora da terra também pode ser igualada ao semen virile;

·                   A água é símbolo de vida, morte e renascimento;

·                   O dilúvio não trouxe apenas a ruína, conduziu também a arca de Noé para uma nova vida;

·                   Os egípcios esperavam que a água como fluxo que provém de Osíris, libertasse da rigidez da morte;

·                   A deusa babilônica Ishtar precisou descer ao reino dos mortos para buscar a água da vida;

·                   A idéia da Água da Sabedoria é bíblica;

·                   Na psicologia profunda a água escura, insondável, é símbolo do inconsciente. O estado da água pode indicar o próprio sentimento da alma. Goethe: alma do homem, como te assemelhas à água!

Pode-se perceber que a água não é um conceito simples. Nem poderia ser, já que encerra em si a origem do universo.

Para abreviar um pouco mais, vejamos a paleografia, quer dizer, os gráficos antigos, desde os hieróglifos até o alfabeto, a fim de mostrar a imagem visual e simbólica da nossa Mãe-Água.

Observe bem a correlação entre essas idéias: ÁGUA, MÃE, CRIAÇÃO, NASCIMENTO, VIDA.

Em chinês escreve-se a palavra MAR usando dois símbolos: água e mãe. O francês tem o mesmo som para mãe e mar: la mere (mar), la mère (mãe). A letra M é o belo monumento criado pelos antigos, sintetizando toda sua concepção do mundo nascente. Sem conhecer etimologia e simbologia, as crianças chamam por sua mãe com a letra M em cerca de cem idiomas espalhados pelo planeta.

Veja que o M tem a forma de uma onda. Essa letra provém dos alfabetos semitas primitivos, onde M se diz MEM (água). Os semitas, por sua vez, foram buscar essa letra entre os egípcios. Em egípcio, o M se diz MU, MI e significa água, oceano. O hieróglifo retrata com perfeição as ondas do mar.

Nosso M é a simplificação do hieróglifo, mas note uma coisa: o MU egípcio ou M não significa apenas água. Significa também MÃE, SEMENTE, ESPERMA. Nos alfabetos de todas as línguas, a letra M é seguida da letra N, que os semitas denominam NUN e significa peixe e filho.

ÁGUA e PEIXE, MÃE e FILHO estão sempre juntos. Até na ordem das letras do alfabeto.

Ainda acha que é coincidência demais? Então o que nos diz a respeito da mitologia, paleografia, e até da etimologia; coincidentemente as duas letras M e N estão sempre juntas em todos os alfabetos do mundo, recordando o que elas significam.

A HISTÓRIA DA LETRA M

MU — MÁIM = ÁGUAS

Nos hieróglifos egípcios, nos cuneiformes e nos alfabetos antigos

 

ALFABETO

 

 ·     SÍMBOLOS: água, peixe, serpente, ondas, vaso com água;

·     IDÉIAS EXPRESSAS PELOS SÍMBOLOS: nada, caos, confusão, indeterminado, sem nome, mundo primordial, cataclismo universal, origem do mundo, vastidão, mãe, filho, nascimento;

 ·     Nossa letra M tem a forma duma ONDA como os gráficos antigos.

 ·     As letras M — N estão sempre juntas porque significam: ÁGUA e PEIXE, MÃE e FILHO.  

Deste modo todas as valências metafísicas e religiosas das águas constituem o conjunto de uma coerência perfeita. Qualquer que seja o conjunto religioso de que façam parte as águas, a função delas é sempre a mesma: elas desintegram, extinguem as formas, lavam os pecados, purificando e regenerando ao mesmo tempo. O seu destino é preceder a criação e reabsorvê-la, não podendo nunca superar a condição do virtual, dos gérmenes e dos estados latentes. Tudo o que é forma se manifesta acima das águas, destacando-se das águas. Em compensação, logo que qualquer forma se destaca das águas, deixando por isso de ser virtual, cai sob a alçada da lei do tempo e da vida; adquire limites, passa a conhecer a história, participa do dever universal, corrompe-se e acaba por se esvaziar de sustância, se não se regenera por imersões periódicas nas águas, se não repete o dilúvio seguido da cosmogonia.

As lustrações e as purificações rituais com a água têm por finalidade a utilização fulgurante daquele tempo, in illo tempore em que teve lugar a criação: elas são a repetição simbólica do nascimento dos mundos ou do homem novo. Todo contato com a água, quando é praticado com uma intenção religiosa, resume os dois momentos fundamentais do ritmo cósmico: a reintegração nas águas, e a criação.

Álvaro Cunha  (Linguista/ Professor)