Edilberto Silva
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VII Convenção Regional Rosacruz da Região PA-I

REALIZADA PELA LOJA ROSACRUZ-BELÉM EM NOVEMBRO/2005

Tema: ÁGUA, VIDA, EVOLUÇÃO

A mitologia da água

EDILBERTO PEREIRA DA SILVA    Correio para Edilberto Pereira da Silva

         Dentre as grandes interrogações que o homem permanece incapaz de responder figura, em todas as mitologias, a da origem da humanidade e do mundo que habita. É como resposta a essa interrogação que surgem os mitos Cosmogônicos.

         Os mitos são narrativas que possuem um forte componente simbólico. Como os povos da antiguidade não conseguiam explicar os fenômenos da natureza, através de explicações científicas, criavam mitos com este objetivo: dar sentido as coisas do mundo. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Deuses, heróis e personagens sobrenaturais se misturam com fatos da realidade para dar sentido a vida e ao mundo.

        

         Os filósofos pré-socráticos diziam que o universo foi gerado de uma matéria única e original: a “Prima Matéria”. Tales de Mileto disse que a água é a origem de todas as coisas e para onde tudo retorna, fonte do movimento e da vida no universo. Para este filósofo, a água é um elemento divino e Deus é aquela inteligência que tudo faz da água.  Xenófans de Cólofon diz que o mar é a fonte da água, fonte do vento: no mar nascem as nuvens, os ventos, os raios. Para Platão, os quatro elementos eram “aquilo que compõe e decompõe os corpos compostos”. Platão e os pitagóricos chamavam a Substância Primordial de a Alma do Mundo, impregnada pelo espírito  daquele que fecunda as Águas Primitivas.

         A água, simbolicamente, é um dos elementos divinos manifestados, e assim é universalmente vista como a matéria substancial para a formação de tudo aquilo que é vivo, a fonte original da criatividade e o símbolo universal da fertilidade e da fecundidade. Os Alquimistas diziam que uma coisa não pode ser transformada sem antes ter sido reduzida a sua “Prima Matéria”, a água. No sentido psicológico, a água é o reservatório de toda a pulsão de vida.

         Na maioria das tradições religiosas a água é considerada a “Prima Matéria”, a matéria-prima da criação. E a maior parte das cosmogonias se refere à água como o mais antigo dos elementos. Na cultura judaica e cristã  a água é o símbolo do primeiro lugar, a origem da criação. Ela é a semente, o “mem” (M), que simboliza a água sensível da qual tudo se origina. O “M” é a mais sagrada de todas as letras, é masculina e feminina ao mesmo tempo e foi criada para simbolizar  a Água original, o Grande Oceano e suas ondas. 

         No Gênesis, o Sopro ou Espírito de Deus pairava sobre as águas. Da mesma forma o ovo cósmico Bramanda  foi chocado na superfície das águas. Na mitologia hindu, o deus Narayana flutuava sobre as águas primordiais, e de seu umbigo brotava a árvore cósmica. Na mitologia egípcia, Kneph, o Deus Eterno, não revelado, era representado por uma serpente, símbolo da Eternidade, enroscada em torno de um vaso com água, a cabeça suspensa sobre a água que ela fecundava com um sopro. Ainda no antigo Testamento, Jeová é comparado à chuva da primavera, ao orvalho que faz crescer flores, às águas frescas que descem das montanhas, à torrente que sacia. Para Tertuliano, a água é a morada do Espírito de Deus. Na mitologia chinesa, a fertilidade aquática  concentra-se nas nuvens, numa região superior. No Corão, a água que cai do céu é uma água abençoada, porque é signo do divino. O próprio homem foi criado de uma água que se espalhou.

         ÁGUAS MASCULINAS:

         FÓRCIS era filho de Géia e Pontos e irmão de Nereu. É uma das antigas divindades marinha pertencentes à primeira geração divina. Fórcis era também chamado de Forço, e era ele que presidia o coro de todas as divindades marinhas. Fórcis tinha o poder de  se metamorfosear, mas esse poder é mais comumente atribuído a Proteu e a Nereu do que a Fórcis.

         O velho deus marinho residia em Arímnion, nas costas da Acaia, ou ainda na ilha de Cafalênia ou em Ítaca. 

         PROTEU é também um antigo deus marinho cujo nome é uma forma arcaica de Protógono, o primogênito. Este “Velho do Mar” era encarregado de guardar os rebanhos de Poseidon, formados de grandes peixes e focas. Nas narrações não se costuma fazer menção aos pais de Proteu, mas apenas ao seu lugar preferido para morar, numa ilha arenosa chamada de Faros,  perto da foz do Nilo, onde também morava a sua filha Cila. Proteu também era dotado de poder mântico, que lhe fora concedido por Poseidon, mas evitava ser importunado, metamorfoseando-se para fugir dos consulentes importunos. 

         NEREU é deus marinho mais antigo que Poseidon. Segundo Hesíodo, era filho de Ponto e de Géia. Segundo outras versões, era filho de Oceano e de Géia. Casou-se com sua irmã Dóris, com a qual teve cinqüenta filhas, chamadas de Nereidas.

         A morada habitual de Nereu é o mar Egeu, onde vive cercado de suas filhas que dançam e cantam em sua honra. As Nereidas são representadas como belas jovens, cujos longos cabelos são entremeados de pérolas. Cavalgam em delfins e cavalos marinhos  e podem levar na mão um tridente, uma coroa ou um galho de coral. Muitas vezes são representadas como metade mulheres e metade peixes.

         O vaivém das águas do Mar simboliza tanto a expansão quanto a retração, o movimento transitório constante de um ponto a outro. A expansão e retração do Universo correspondem ao movimento de respiração de Brahma, ou a um dia e uma noite do deus.

         O Mar representa, melhor do que o Oceano, a dinâmica da vida e da morte, do começo e do fim; tudo se origina no Mar e tudo retorna a ele. Ele expressa os processos de passagem, a vida e a morte. “A Água substância da vida é também substância da morte”. 

         POSEIDON

         POSEIDON era filho de Crono e de Réia e irmão de Hades e de Zeus. Logo que nasceu, Réia o escondeu em um aprisco da Arcádia para livrá-lo de ser engolido pelo pai, e fez Crono acreditar ter ela dado à luz um potro que lhe deu para devorar.

         Quando se tornou adulto apaixonou-se por Hália, irmã de seus educadores, e teve com ela seis filhos e uma filha chamada Rodos, nome que mais tarde foi dado à ilha de Rodes, onde moravam os Telquines.

          Poseidon governa o seu reino como um deus calmo, justo, bondoso e tranqüilo. Do fundo do mar, onde está situada sua moradia, sabe tudo quanto se passa na superfície, impedindo os naufrágios e libertando com seu tridente os navios encalhados. Mas nem sempre se mostrou um deus pacato.

         Poseidon era um dos deuses mais venerados na Grécia e também em Roma, onde era chamado de Netuno.

         ZEUS

         Zeus o rei do Olimpo, é um dos deuses gregos que possui o maior número de atributos simbólicos. Além dessas inúmeras características, muitos dos epítetos de Zeus demonstram possuir as qualidades de um deus da atmosfera. Ómbrios e Hyétios (Chuvoso), Úrios (o que envia ventos favoráveis), Astrapios ou Astrapáios (que lança raios), Brontaîos (o que troveja). 

         A tormenta e a tempestade possuem miticamente tanto um aspecto destruidor quanto um aspecto criativo que fazem parte do processo de renovação cíclica da vida. Shiva, o destruidor, é também o renovador, pois traz em si o significado de viver é morrer e morrer é viver. Como deus da tormenta, Zeus se assemelha a Shiva-Rudra, o destruidor. É na tormenta que se dão as ações criadoras, porque ela é também a chuva fertilizante, o sopro divino, o princípio celeste que se manifesta na matéria.

         O deus do Olimpo atesta e reforça, através de todas essas manifestações plenas de significado, o simbolismo do céu como um lugar sagrado de onde se origina o desejo da criação do cosmo, de “transcendência”, de “ascensão” e de “centro”. É o lugar de onde veio o homem para a sua jornada terra e para onde ele retorna ao final de seu percurso. 

 

         TRITÃO

         Filho de Poseidon e de Anfitrite, Tritão era um deus marinho que tinha uma forma semi-píscea e semi-humana; a parte superior de seu corpo era de homem e a parte inferior, um peixe de longa cauda. Era mensageiro de seu pai, a quem precedia sempre, anunciando a sua chegada ao som de uma concha. 

         O Filho de Poseidon é tanto um ser que contém as possibilidades virtuais e latentes das águas, no seu aspecto de peixe, quanto, na sua aparência de homem, é o arauto, o anunciador do mundo formal, do mundo do Pai. 

 

           GLAUCO

         Glauco, o deus marinho, é filho de Poseidon e de uma ninfa do mar chamada Naís. Nasceu mortal mas, um dia, tendo posto sobre as ervas da margem uns peixes que acabara de pescar, notou que eles se agitavam de um modo extraordinário e se lançavam no mar. Acreditou que essas ervas possuíam uma virtude mágica, provou-as e tornou-se um deus marinho.

 

         ÁGUAS FEMININAS:

         TÉTIS, a filha de Urano e Géia. Tétis é a Água-Mãe, e seu consorte irmão, o Oceano, é a Água-Pai universal. Unidos, eles simbolizam a força criadora e geradora que está presente em tudo. As águas masculinas e femininas são as expressões simbólica da união universal das potencialidades contidas na Fonte universal, na Totalidade, o Tao da filosofia chinesa, o “retundum” alquímico, o Ovo Cósmico e o Círculo Perfeito. 

         Tétis é uma Magna Mater, uma Grande Mãe Cósmica, a representação feminina da água como matriz uterina, como ventre criativo. Ela é a água primeva, o grande útero que dá origem ao mundo e a todos os seres.

 

         AS NINFAS

        

         As ninfas eram distinguidas de acordo com a parte da natureza que personificavam, e incluía as Oceânidas, ou filhas do Oceano, o oceano que flui ao redor da terra; as Náiades, ou filhas de Nereu, deus do mar, ninfas do mar Mediterrâneo; as Potâmidas, ninfas dos rios; as Náiades, ninfas dos córregos; as Oréiades, ninfas das montanhas; as Napéias, ninfas dos vales; Melíades, ninfas dos troncos e freixos; as Hamadríades, ninfas dos bosques e as Dríades, ninfas das florestas.

 

         AS OCEÂNIDAS

        

         Belas , graciosas e sempre jovens, foram amadas por muitos deuses, como Zeus, Apolo, Dionísio e Hermes. Essencialmente ligadas à terra e à água, simbolizam a própria força geradora desses elementos. Não eram imortais, mas possuíam vida muito longa, algumas chegando a viver dez mil anos.

 

         AS ONDINAS

         Esta classificação aplica-se a todos os seres associados ao elemento água e à sua força. Estão presentes nos lugares onde há uma fonte natural de água. A atividade das ondinas se manifesta em todas as águas do planeta, quer provenham de chuvas, rios, mares, oceanos, etc.  

         A água é a fonte da vida e estes seres são essenciais para nos auxiliar a encontrar a nascente interior. Despertam em nós os dons da empatia, da cura e da purificação.

         Muitas lendas sobre sereias, damas dos lagos e demais espíritos aquáticos sobreviveram até os nossos dias. Na realidade, trata-se de uma categoria mais evoluída de fadas que operam no interior do elemento, já que a natureza das ondinas é bem mais primária e menos desenvolvida. 

 

         AS NEREIDAS

         As Nereidas, filhas de Nereu e de Dóris e netas de Oceano, são consideradas as mais famosas das ninfas. Personificam as ondas do mar no seu incessante movimento de ida e vinda. São descritas como possuindo forma humana, muitas vezes como belas mulheres, mas que da cintura para baixo são peixes. 

         As Nereidas representam o movimento vital natural, porque a vida é, em si mesma, movimento e dança. As ondas, nos seus eternos movimentos cósmicos, criam, destroem e recriam permanentemente, e, por isso mesmo, renovam e dão estabilidade. As Nereidas são as dançarinas de Deus, que com seus movimentos rítmicos de ondas do mar, encarnam o constante fluir da energia universal.

 

           AS SEREIAS

         As Sereias seduziam os navegadores com sua beleza e com a melodia de seu canto para, em seguida, arrastá-los para o mar. Atraíam com sua música todos os navegadores que passavam por perto de onde moravam e que cometiam a imprudência de escutar o seu canto. Elas possuíam tal poder de sedução que as vítimas não queriam mais retornar ao seu país e, esquecendo-se até de se alimentar, morriam de inanição.

         Ulisses, o rei de Ítaca, conhecido por sua coragem e prudência, é descrito por Homero como aquele que conseguiu resistir à prova heróica de controle do ego sobre os impulsos, simbolizada como o canto das Sereias. No caminho de retorno para casa, ele teria de passar pelo lugar habitado por elas. Para evitar a tentação e a morte, tapou os ouvidos de seus companheiros com cera, mas, desejando conhecer este canto perigoso, pediu que os seus marinheiros o amarrassem ao mastro do navio e que não o soltassem em hipótese alguma. Quando a nau de Ulisses se aproximou do lugar fatídico, as Sereias iniciaram o seu cântico de morte.

         Meio mulher, meio peixe, a Sereia  possui um duplo aspecto: o lado humano, civilizado, e o lado animal, instintivo, simbolizando a divisão do homem que está ligado à civilização e ao selvagem. 

         Portanto, não é somente através do canto que as Sereias exercem um poder de sedução. Elas apresentam um outro tipo de perigo para a alma, o oferecimento da banalidade e da trivialidade que desvia o indivíduo de seu caminho evolutivo espiritual e o ilude com as gratificações narcísicas e efêmeras do mundo das aparências. Elas são as representações das tentações às quais o ser humano é submetido ao longo do caminho da vida e que impedem a sua evolução e o enganam, fazendo-o deter-se antes de haver completado o seu trajeto de volta para a casa do Pai.

         É essa nostalgia das origens que leva o homem à procura das fontes da imortalidade e da juventude, onde ele pode beber a água real, fresca, pura e forte vinda das mão do Deus Pai-Mãe Criador.

 

Deus! Foi ele que criou o céu e a terra

e que fez descer do céu uma água

graças à qual faz brotarem os frutos

para a vossa subsistência.

                                               (Corão, 14, 32; 2, 164)

 

FIM

 

Créditos Bibliográficos:

CASTRO, Consuelo de et. Al. Mitologia. 2, ed., São Paulo: Abril Cultural, 1976. v. 2, 271 p.

LEFÈBRE, Silvia et al. Dicionário de Mitologia Greco-Romana, 2 ed., São Paulo, SP: Abril Cultural, 1976, 196 p.

CAVALCANTE,  Raissa – Mitos da Água, Via Internet.

Edilberto Pereira da Silva